Não há dúvida que o tema alopécia androgenética tem sido amplamente abordado no meu site. Porquê? Porque eu mesma tenho uma alopécia androgenética, porque profissionalmente lancei em Portugal medicamentos usados nesta patologia e porque é uma doença realmente prevalente, podendo afetar 80% dos homens e 40% das mulheres. E desengane-se quem acha que uma alopécia androgenética é o mesmo que queda de cabelo. Uma não significa a outra e vice versa. Uma vez que o tema da terapia do laser / luz de baixa potência tem vindo a aparecer cada vez mais sobre a forma de produtos intermináveis que “prometem” tratar / melhorar o aspeto do cabelo, decidi convidar a Dra. Filipa Ventura, dermatologista de referência em Portugal na área do cabelo, da Clínica Epidermis Porto, a explicar o que é a terapia com laser / luz de baixa potência e se realmente vale a pena investir neste tipo de tecnologia na alopécia androgenética.
Mas antes… as terapias complementares da alopécia androgenética

Já abordei aqui no site o tema das diversas terapias complementares da alopécia androgenética neste artigo, pelas mãos do dermatologista Dr. Rui Oliveira Soares e também o tema transplante capilar aqui, aqui e aqui. Recomendo a leitura destes artigos uma vez que esta é uma área com grande evidência científica no que diz respeito ao tratamento medicamentoso mas onde, também, devido à sensibilidade do tema, existe uma atração de burlões que procuram lucro através de terapias sem qualquer suporte científico, transplantes sem indicação para tal ou terapias complementares caríssimas e com poucas melhorias observadas e que não têm a capacidade de oferecer resultados reais. Não devemos ainda esquecer que um tricologista tem de ser dermatologista. Para verificar se um profissional é dermatologista basta colocar o nome do profissional nesta página do site da Ordem dos Médicos e conferir se aparece o nome e a especialidade – basta colocar o nome e clicar em pesquisar.
Ainda sobre o tratamento medicamentoso da alopécia androgenética recomendo a leitura deste artigo onde é dada a resposta às 20 dúvidas mais frequentes sobre o tema.
O que devemos saber então sobre terapia com laser / luz de baixa potência na alopécia androgenética?
Terapia com laser / luz de baixa potência na alopécia androgenética
Dra. Filipa Ventura: A alopécia androgenética (AGA) é uma patologia que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Caracterizada pela perda progressiva de cabelo, a AGA tem um impacto significativo na autoestima e na qualidade de vida dos indivíduos afetados. Atualmente o minoxidil e os fármacos antiandrogénicos, como a espironolactona e os inibidores da 5 alfa redutase (finasterida e dutasterida), continuam a ser os tratamentos mais utilizados e mais eficazes. Existem poucas opções de tratamento alternativo para os pacientes que apresentem efeitos laterais, que não respondam aos tratamentos clássicos ou a quem estejam contraindicados.
Entre essas opções de tratamento disponíveis, a terapia com laser / luz de baixa potência (LLLT, Low-Level Laser Therapy) tem ganho destaque.
A LLLT é um método de terapia de luz não térmica que tem um efeito fotobiomodulador. Recentemente tem sido utilizado para promover a cicatrização de feridas, bem como pelas suas propriedades anti-inflamatórias, foto-rejuvenescimento e como tratamento para diversas doenças dermatológicas. Embora os mecanismos exatos ainda não sejam conhecidos, alguns mecanismos celulares e moleculares foram identificados em estudos recentes. Presume-se que a LLLT liberte óxido nítrico do citocromo c oxidase, um cromóforo responsável pela absorção da luz vermelha / infravermelha, conduzindo a cadeia de transporte de eletrões a gerar trifosfato de adenosina e espécies reativas de oxigénio, além de induzir fatores de transcrição. Como resultado, tem-se especulado que a LLLT exerce o seu efeito no crescimento do cabelo, estimulando a reentrada na fase anagénica (fase de crescimento) dos folículos capilares em fase telogénica (fase de queda), prolongando a duração da fase anagénica e aumentando a taxa de proliferação dos folículos capilares anagénicos ativos.
Dispositivos de laser / luz de baixa potência (LLLT, Low-Level Laser Therapy) em capacete, boné, pente ou banda para cabelo

Existem diferentes dispositivos de LLLT, em forma de capacete, boné, pente ou banda para o cabelo. Acredita-se que o efeito da LLLT sobre o crescimento do cabelo seja observado, sobretudo, para comprimentos de onda entre os 630 e 660 nm. Estes dispositivos podem emitir:
- laser diodo (LD)
- light-emitting diodes (LED)
- ou uma combinação de ambos
Existem muitos dispositivos comercializados, alguns deles são:
- Capillus – Descrição: Capacete de LD de 650 nm; Tratamento: duração de 30 min, 3-4x/semana; Modelos populares: CapillusPro, Capillus Plus, CapillusUltra
- iRestore – Descrição: Capacete de LD e LED (650-660 nm); Tratamento: duração de 25 min, diário; Modelos populares: iRestore Professional, iRestore Essential
- HairMax – Descrição: Pente ou faixa do cabelo que emitem LD de 655 nm; Tratamento: duração entre 90 seg a 15 min, 3x/semana; Modelos populares: HairMax LaserBand, HairMax LaserComb
- LaserCap – Descrição: Boné de LD de 650 nm; Tratamento: duração de 30 min, diário; Modelos populares: LaserCap SD, LaserCap HD+
- RevianRed – Descrição: Boné de LED (620-660 nm); Tratamento: 10 minutos, diário; Modelos populares: GrivaMax Laser Cap
Quais as diferenças entre a luz laser e a luz dos LEDs?
De forma resumida, passo a explicar as principais diferenças entre as duas fontes de luz em causa, LD e LED. A luz laser (LD) é coerente, o que significa que as ondas de luz são sincronizadas em fase e direção, enquanto que a luz dos LEDs é mais difusa e menos direcional. A luz laser penetra mais profundamente na pele devido à sua alta coerência e direção e pode atingir as camadas mais profundas do couro cabeludo, estimulando os folículos capilares de forma mais eficaz. A luz dos LEDs é mais superficial, menos penetrante e a distribuição é mais uniforme, mas pode não alcançar as camadas mais profundas do couro cabeludo com a mesma eficácia que a luz laser. Ambas são consideradas seguras, mas a luz laser, dada a sua maior intensidade, tem um maior risco de queimadura. Equipamentos de luz laser tendem a ser mais caros devido à tecnologia envolvida. As sessões de tratamento podem ser realizadas em clínicas especializadas, o que pode aumentar o custo total. Os dispositivos de LED são mais acessíveis e frequentemente disponíveis para uso doméstico, tornando-se uma opção mais económica para muitos pacientes.
A LLLT é geralmente bem tolerada, com poucos efeitos laterais relatados. Quando ocorrem, os efeitos adversos são tipicamente leves e transitórios, incluindo irritação leve do couro cabeludo ou sensação de calor durante o tratamento. A aparente ausência de efeitos laterais graves torna a LLLT uma opção atraente para muitos pacientes.
Após uma revisão sistemática da literatura é clara a escassez de estudos controlados que visam demonstrar a eficácia e segurança da LLLT para o tratamento da AGA. Os trabalhos que existem apresentam uma melhoria discreta a moderada da AGA mas são necessários mais estudos para essa confirmação, assim como para uma definição dos parâmetros ideais, tempo de sessões e intervalo entre elas.
Na minha prática clínica não aconselho o uso destes dispositivos precisamente pela ausência de evidência clínica da sua eficácia.
Dra. Filipa Ventura, dermatologista


Notas finais: no meu caso nunca usei este tipo de dispositivos de laser / LED (LLLT) na alopécia androgenética. Para além da falta de evidência científica, são equipamentos caros e com escassos estudos controlados que mostrem a sua eficácia e SEGURANÇA. Por este motivo, e porque não me foram indicados ou sugeridos no meio médico especializado, optei por nunca utilizar na minha abordagem à alopécia androgenética.
Fotografia: Márcia Soares

