Quando vi o meu primeiro cabelo branco no meio de todos os outros castanho muito escuros tive um choque. Encarquilhado, ele espreitava como uma sentença de velhice precoce, não pediu licença para aparecer e muito menos gostei de o receber na minha cabeça. Durante algum tempo tive uma certa relação de distanciamento do tema, como quem não quer pensar no assunto. Mas à medida que outros surgiam, dos lados da cabeça, eu sabia que era um caminho sem volta, cada vez mais rápido e que me empurraria para uma decisão. Afinal… o que vou fazer com os meus cabelos brancos?
A minha relação com os cabelos brancos desde a infância

Os cabelos brancos pertenciam apenas às velhinhas, como um fator indissociável da idade, talvez algum desleixo (dependendo da pessoa e de como o assumia ou tratava). Algumas amigas da minha mãe tinham cabelo branco, e agora que reflito, um branco lindo e cuidado. Mas sim, era uma prova da idade. Já não eram meninas nem senhoras. Agora eram “velhas” (na minha cabeça). A minha mãe, por outro lado, sempre pintou o cabelo. Teve sempre cabelo castanho escuro, que à medida que o tempo passou, foi dando lugar a um tom alourado, sem vontade de aceitar o branco “de neve”. Depois também me lembro das velhotas de Sagres, onde eu passava as férias de verão todos os anos, os cabelos brancos, compridos e secos, amarelados, que emolduravam por norma uma face bronzeada e cheia de rugas marcadas, os dentes afastados, a roupa preta da viuvez. Durante muitos anos o cabelo branco foi para mim um misto de emoções. Aquelas pessoas mais próximas de mim e com o cabelo mais cuidado exibiam um ar matriarca, ao passo que as “desleixadas” eram assim por vicissitudes da vida, ou da pobreza ou do inevitável.
Pintar, cortar ou ignorar os cabelos brancos: as primeiras tentativas
Cheguei a fazer corte de cabelos brancos em salão. Milimetricamente cortados junto à raiz (jamais me imaginei, com a minha alopécia, a arrancar cabelos), saía do salão com um ar mais jovem (no mínimo uns 5 anos). Mas mais marotos encarquilhados chegavam e começou a ser quase impraticável cortar tantos brancos dessa forma milimétrica. Achei mesmo que estava a evitar algo que talvez tivesse de olhar de outra forma. Como alguém que apaga as rugas com um toque de toxina botulínica (mas nesse caso a pele ainda fica com um aspeto mais reluzente). A opção? Começaram por me dizer em vários salões: “a coloração tom sobre tom não faz mal ao cabelo”, “não cria efeito raiz”, “podemos ir aclarando”… e nada me parecia minimamente viável. Eu e a minha alopécia merecemos mais, não quero ir por aí… foi o que sempre pensei. Nem ser refém da manutenção.
Entre os meus 16-20 anos comecei a fazer coloração, primeiro uns reflexos avermelhados (fim dos anos 90, what else, ahahah…) e depois fiz os maiores disparates, incluindo madeixas. O meu cabelo ficou seco, sem vida, isto numa altura em que os primeiros sinais de alopécia já estavam à espreita. Decidi que tinha de parar tudo e recomeçar. Pintei o cabelo do meu tom natural e nunca mais pintei o cabelo desde aí.
Sobre o tema coloração e cabelo branco, sugiro a leitura deste artigo com a opinião de 3 dermatologistas.
O impacto da pandemia e a mudança de visão

Com a chegada da pandemia, por outro lado, a minha irmã deixou de pintar o cabelo. Outrora castanho dourado, as pontas secas e com frizz deram lugar a um grisalho assumido e bonito, com aspeto hidratado e mais alinhado. Mais saúde. Ficou a parecer mais velha? Sim. Mas o cabelo ficou mais bonito. Então, no conjunto, tudo ficou mais harmonioso, fez todo o sentido. E a liberdade de não ter de ir pintar? E o que poupou?
A minha decisão sobre cabelos brancos

As fontes de inspiração são para mim… MUITAS. Cada vez que vejo uma imagem ela ecoa na minha cabeça, seja pela positiva ou pela negativa, ou simplesmente pelo status quo. Somos todas iguais em Portugal? Por vezes parece-me que sim. Outras vezes parece-me que não. Depende da mancha de imagens com a qual me debato ao longo de dias a fio. Quando procuro uma inspiração recorro ao meu querido Pinterest, fonte inesgotável de criatividade. Um dia comecei a fazer pesquisa sobre cabelo grisalho. E imagem atrás de imagem o grisalho pareceu-me subitamente a liberdade mais sexy do mundo, a saúde, a experiência, sinal de modernidade e de evolução que eu tanto procurava no meio das minhas dúvidas. De quem não fica refém de uma cor e se dá ao luxo de assumir uma nova identidade: um eu mais crescido e maduro, um eu menos preocupado com os outros, um eu que investe em cuidados específicos, em hidratações e procedimentos que apenas trazem saúde.
Foi assim que decidi. Não digo, porque a idade assim mo ensinou, que é uma decisão para sempre, mas sei que agora é o caminho que quero fazer. Em vez de a cada cabelo branco me exaltar, parece que estou um cabelo a menos da minha meta, aquele grisalho lindo e cuidado, poderoso e saudável. É uma decisão muito pessoal e a minha também esteve relacionada com o facto de ainda sentir o meu rosto bastante jovem. Hoje em dia olho para senhoras com mais 20 anos que eu e já estranho os cabelos castanhos e escuros, fico sempre a pensar naquelas feições com outra coroa. Entendo as decisões que levam cada pessoa a optar por um caminho diferente. Afinal… essa é uma escolha muito emotiva também.
No entanto o mundo também fez sempre questão de me “dizer” que o cabelo grisalho é sinónimo de desleixo e o “negócio” da coloração nos salões não deixa de ser, provavelmente, uma das suas maiores fontes de receita. Por isso as pressões são muitas. Mas há muitos exemplos de mulheres que assumem os cabelos brancos.
Figuras públicas que inspiram cabelos brancos
Um dos exemplos mais paradigmático para mim é o da rainha de Espanha. O interessante é que a decisão da Rainha Letizia teve um impacto especial porque aconteceu num ambiente, a realeza, onde tradicionalmente existe uma forte pressão para manter uma imagem muito controlada. Hoje, muitas mulheres veem os cabelos brancos não como um sinal de descuido, mas como uma escolha estética moderna e confiante. Por exemplo:
Realeza e figuras institucionais
- Rainha Letizia: nos últimos anos tem aparecido cada vez mais com os fios brancos visíveis, sem tentar escondê-los totalmente, algo que gerou bastante debate e admiração
- Rainha Sofia: há décadas usa o cabelo grisalho de forma elegante e natural
- Princesa Carolina do Mónaco: outra aristocrata frequentemente elogiada pela forma como assumiu os cabelos grisalhos
Atrizes
- Sarah Jessica Parker: foi muito comentada por aparecer com raízes grisalhas visíveis em vez de as disfarçar
- Andie MacDowell: tornou-se uma das maiores referências do movimento grey hair especialmente após aparecer em Cannes com os seus caracóis grisalhos
- Helen Mirren: alterna entre tons prateados e brancos, sempre com imenso estilo
- Jodie Foster: também adotou uma aparência mais natural nos últimos anos
Outras figuras
- Grece Ghanem: muito seguida nas redes sociais pelo estilo contemporâneo e pelos cabelos prateados
- Christine Lagarde: exibe cabelos grisalhos com elegância e tornou-se referência de poder e sofisticação
Pressão social e estética do cabelo branco feminino
O que se observa em Portugal é que a tendência tem sido mais discreta do que em países como França ou Reino Unido. Muitas mulheres conhecidas optam por uma transição gradual para o grisalho, em vez de um corte radical ou de uma afirmação pública do tipo “simplesmente não quero pintar o cabelo”.
No fim, a decisão é profundamente pessoal e resulta da soma das experiências de vida, da forma como crescemos a ver o cabelo branco e da maneira como cada uma de nós encara o próprio futuro. Os homens grisalhos serão sempre vistos como atraentes? E as mulheres… como são vistas nesse mesmo espelho?
Fotografia: Andreia Fonseca

